Será que precisa? Dar antiinflamatórios para a criança?




Dar antiinflamatórios para a criança por conta própria é um perigo. Saiba por quê

por VANESSA DE SÁ
design LETÍCIA RAPOSO
fotos ALEX SILVA

Página 1 de 2

Eles são assíduos freqüentadores da farmacinha caseira de quem tem filhos. E são rapidamente sacados de lá à menor queixa de dor ou nos casos de uma febrícula à toa. O tombo provocou inchaço? Dá-lhe antiinflamatório. A garganta incomoda? Lá vai outra dose. Pudera. Nem se exige receita médica para alguém sair da farmácia de posse de uma dessas drogas curinga, quase uma panacéia para as mazelas infantis. “Lamentavelmente, os antiinflamatórios vêm sendo usados de forma abusiva, errada e sem critério”, afirma Roberto Tozzi, pediatra do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo.

“Sangramento gastrointestinal, toxicidade para os rins e o fígado, além de alergia, são os principais riscos do mau uso”, enumera Sandra Oliveira Campos, pediatra da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp. “E, quando o fígado ou os rins são afetados, pode haver desde uma alteração transitória de seu funcionamento até lesões graves.” Tudo bem, você pode até imaginar que é preciso dar muito antiinflamatório para que a situação chegue a esse ponto. Mas há outra ameaça, esta bem mais corriqueira. A de mascarar doenças sérias, deixando que evoluam — e aí o atendimento médico entra na história mais tarde do que deveria.

Essa classe de medicamento não atua na raiz dos males que acometem a criança. Seu papel é minimizar o mal-estar que eles provocam. Afinal, inflamação nunca foi sinônimo de infecção. Esta ocorre quando algum microorganismo nocivo contamina o corpo. Já a inflamação é a reação orgânica a alguma agressão, seja ela um trauma — como uma bela pancada —, seja ela a presença de um invasor, que pode ser um vírus, uma bactéria ou até mesmo um corpo estranho, como um espinho fincado na pele.

Em qualquer uma dessas situações, as células do sistema imunológico são convocadas para dar cabo do responsável pelos danos. Para que cheguem depressa, o fluxo de sangue aumenta na região problemática. Por isso mesmo, ela fica avermelhada e ligeiramente mais quente do que o restante do corpo. Então começam as batalhas e, nelas, o organismo usa armas como as moléculas de prostaglandina, que disparam dor e febre. A maioria dos antiinflamatórios inibe justamente essa produção de prostaglandinas no local. Por isso, agem como analgésicos e antitérmicos.

São freqüentes os estudos que mostram o impacto dos antiinflamatórios no corpo dos adultos. Alguns deles sacudiram a indústria farmacêutica, levando governos de diversos países, inclusive o brasileiro, a retirar alguns remédios do mercado. “Mas esses trabalhos que avaliam eficácia e segurança quase nunca contemplam crianças abaixo de 12 anos por questões éticas”, esclarece Rogério Hoefler, do Centro Brasileiro de Informação sobre Medicamentos (Cebrim). Por não saber até que ponto o uso de alguns antiinflamatórios na meninada seria confi ável, a FDA, agência que fiscaliza o setor de medicamentos nos Estados Unidos, prefere a cautela de indicar a maioria desses medicamentos para quem já está crescidinho — com mais de 12 anos. “No Brasil, as recomendações variam conforme a droga e a existência ou não de estudos acompanhando pacientes pediátricos”, compara Hoefler. Alguns são liberados só para adolescentes de 14 anos, outros recebem sinal verde a partir do segundo aniversário.

Segundo a pediatra Sandra Oliveira Campos, um dos raros antiinflamatórios que a FDA autoriza para os pequenos é o ácido acetilsalicílico, droga famosa pelo efeito analgésico. “É que ela é muito útil em algumas situações, como em doenças reumáticas na infância, embora haja o risco de a criança desenvolver síndrome de Reye, se ela estiver infectada pelo vírus da catapora ou da gripe.” A propósito, um erro freqüente em relação ao uso desse medicamento é oferecê-lo quando o pequeno tem uma infecção viral.

Outro engano é apelar para esse remédio por qualquer bobagem. “Os adultos temem a febre, uma resposta natural e necessária do corpo”, analisa Paul Checchia, diretor médico da unidade pediátrica de terapia intensiva do Hospital Infantil St. Louis, em Missouri, nos Estados Unidos. Em tese, quando se toma antiinflamatório sem um bom propósito, ele atrapalha as defesas que tentam expulsar um intruso. E a infecção se prolonga ou até vai mais longe. “O antiinflamatório alivia o inchaço na área afetada, além de cortar a dor e a febre. A criança aparenta estar melhor, enquanto uma bactéria nociva não pára de se multiplicar”, exemplifica Hoefler.

Para Sandra Oliveira Campos, o importante é fazer bom uso dessas drogas. “E isso significa obedecer às dosagens e ao tempo de tratamento indicados pelo médico, que também leva em conta outros medicamentos que a criança eventualmente estiver tomando”, diz ela. E ninguém faz isso quando, sem ouvir ninguém, lança mão daquele antiinflamatório que está na farmacinha doméstica.


Créditos: NutriçãoSadia. Tecnologia do Blogger.