Disbiose - Desequilíbrio das bactérias

Vinícius Graton - Nutricionista.

Nosso sistema intestinal é um imenso filtro, ele mede em torno de 7 metros, e se fosse totalmente estendido teria a área aproximada de uma quadra de futebol de salão. Se as paredes do intestino estão em bom estado, os nutrientes são bem absorvidos e as toxinas presentes no bolo fecal não conseguem penetrar na corrente sanguínea. O contrário acontece quando suas paredes estão prejudicadas, gerando ou facilitando o aparecimento de doenças. O trato gastro-intestinal é um ecossistema dinâmico e integrado, composto de uma matriz de células, de um sistema imune completo e de numerosas espécies de microrganismo que normalmente colonizam e protegem esta mucosa. Situações como uso de medicamentos (principalmente antibióticos), estresse, uso de laxantes, infecções, dieta inadequada, constipação intestinal, podem fazer com que haja um desequilíbrio desta população bacteriana. Os sintomas incluem desde alterações no ritmo intestinal, até flatulência, irritabilidade e fadiga. A avaliação com um médico faz-se necessária para o início do tratamento e a alimentação tem papel fundamental neste processo.

O intestino começa a ser povoado quando a criança nasce. A chamada microbiotia indígena, depende do tipo de alimento ingerido. No desenvolvimento intestinal vários fatores têm um importante papel no povoamento, e na formação do sistema imune adaptativo, entre eles: o parto, normal ou cesárea, a amamentação com leite materno, com leite maternizado, os alimentos líquidos e sólidos que são introduzidos na dieta. As fezes do recém nascido que se alimenta exclusivamente de leite materno, contém enorme quantidade de Lactobacillus e estas crianças têm uma incidência menor de episódios de diarréia que as que se alimentam com leite maternizado. O ph das fezes também evolui com a idade e com o tipo de alimentação. A reação é ácida variando o ph entre 5 e 6, devido aos ácidos orgânicos decorrentes da lactose. A flora iodófila pode estar presente devido a fermentação. Existe uma monoflora.

Permeabilidade do Intestino

Se a permeabilidade do intestino estiver alterada, partículas de alimento mal-digeridas, toxinas e radicais livres conseguem entrar na corrente sanguinea em alta quantidade. As partículas de alimento mal digeridas são interpretadas pelo sistema imunológico como intrusos, gerando a formação de anticorpos. Por motivos que ainda não compreendemos inteiramente, o organismo reage ao anticorpo que ele mesmo formou fabricando um novo anticorpo. E esse conjunto de reações facilita o aparecimento de doenças auto-agressivas (auto-imunes). Além disso, algumas partículas de alimento mal digeridas e absorvidas podem formar complexos que chegam ao cérebro e geram sintomas comuns como ansiedade ou depressão.
Vários metais pesados, como o chumbo, mercúrio ou alumínio, também conseguem entrar na corrente sanguínea se a permeabilidade estiver comprometida. Toxinas de bactérias que normalmente deveriam ser eliminadas podem também penetrar no organismo, gerando uma sobrecarga aos nossos sistemas de eliminação. Além do fator permeabilidade, costuma ocorrer uma alteração na flora intestinal, no delicado equilíbrio das bactérias intestinais.

Nosso intestino abriga algo em torno de 30 a 50 trilhões de microorganismos, um número alto considerando que nosso corpo é formado por algo em torno de 100 trilhões de células.

Vários desses microorganismos podem provocar doenças, mas sua presença é controlada por bactérias benéficas ao organismo. Essas bacterias favoráveis estão em estado de equilíbrio muito delicado. Nós propiciamos abrigo e alimento a elas, e elas produzem vitaminas e alguns antibióticos naturais. O acúmulo de agressores ao intestino costuma provocar alterações importantes nesse equilíbrio, resultando num aumento perigoso no número das bactérias nocivas e na redução das bactérias benéficas.

Quando os dois fenômenos, aumento da permeabilidade e quebra no equilíbrio das bactérias intestinais, estão presentes, ocorre a Disbiose, um estado ameaçador que favorece o aparecimento de inúmeras doenças.

A Disbiose inibe a formação de vitaminas produzidas no intestino e permite o crescimento desordenado de fungos e bactérias capazes de afetar o funcionamento do organismo, incluside do cérebro, com conseqüências significativas sobre as emoções. A Cândida, por exemplo, um fungo presente em baixa quantidade habitualmente, pode crescer em número e facilitar o aparecimento da fadiga crônica, da depressão e da fibromialgia. A Disbiose costuma aparecer principalmente pelo uso de antibióticos, infecções e parasitas intestinais, falta de fibras na alimentação, prisão de ventre crônica e alergia alimentar. Os indicativos de Disbiose são muito comuns, a simples presença de prisão de ventre crônica, gazes, cólicas e diarréias frequentes sugerem a necessidade de se verificar o equilíbrio da flora intestinal. O tratamento é realizado primordialmente com a administração de probióticos, que são bacilos intestinais benéficos. Em contraste com os iogurtes comerciais, esses bacilos são ingeridos em conjuntos de espécies diferentes, em número bem maior (até 20 vezes mais) e não contém calorias significativas. Também são utilizados antioxidantes com grande ação na parede intestinal e prébióticos, certos alimentos utilizados exclusivamente pelas bactérias benéficas para que possam restabelecer o equilíbrio, vencendo em número e qualidade os microorganismos desencadeadores de doenças.

Lactobacillus

Lactobacillus são conhecidos pela propriedade de produzir um antibiótico natural, a acidofilina, que possui atividade antimicrobial, contra os patógenos comuns derivados dos alimentos. A modulação nutricional durante o desenvolvimento neonatal, afeta a longo prazo a imunocompetência do indivíduo. A microbiotia do intestino, pode ser considerada um órgão adaptável metabolicamente e rapidamente renovável, à medida que novos alimentos vão sendo introduzidos na dieta. As bactérias indígenas (comensais) do intestino, são constituintes importantes da barreira de defesa da mucosa intestinal. Elas não permitem que ele seja colonizado por microrganismos patogênicos.

Quando isto ocorre, eles são rapidamente eliminados. As bactérias indígenas competem por nutrientes essenciais, por locais de fixação no intestino e criam um ambiente desfavorável para o crescimento de novos patógenos entéricos. Na mucosa há sempre uma adaptação dinâmica de sucessão bacteriana e interação entre as bactérias, e entre as bactérias e o hospedeiro. Todos os principais grupos de microrganismos estão presentes no intestino. As bactérias predominam, mas encontram-se, também, fungos e parasitas. O cólon é o local primário de colonização bacteriana, devido à lenta renovação de suas células. Neste local, há uma grande concentração de ácidos graxos de cadeia curta, resultado da fermentação dos carboidratos da dieta. Estes carboidratos exercem um papel importante no metabolismo das bactérias e servem como estímulo para a renovação e crescimento das células deste segmento do intestino.

Uma espécie de bactéria pode ser indígena de algum segmento do intestino, mas estranha para outro. Algumas bactérias ocupam todos os microhabitats, porém outras podem tornar-se patogênicas quando encontradas em outro habitat intestinal. Quatro microhabitats são descritos: o lúmen intestinal, a camada mais profunda de mucus que recobrem as células das criptas, e o epitelial que reveste a mucosa intestinal. As bactérias denominadas “amigáveis”, são também chamadas probióticas ou eubióticas, são elas que trazem mais benefício ao homem. Essas bactérias produzem vitaminas do complexo B incluindo a biotina (B1), niacina (B3), riboflavina (B2), ácido pantotênico (B5), piridoxina (B6), cobalamina (B12), ácido fólico, vitamina A e vitamina K.

O termo probiótico tem sido usado para se referir aos suplementos que contém Lactobacillu, em pó ou em cápsulas. Os dois grupos mais importantes da flora são os Lactobacillus encontrados principalmente no intestino delgado e as bífidobactérias, que habitam primariamente o cólon. A dieta tem um papel importante na predominância de uma bactéria sobre a outra. Elas ajudam a aumentar a resistência do organismo.

Funções das bactérias probióticas:

- Nutricional:manufaturam vitaminas;
- Digestiva: digerem a lactose do leite. Permitem que pessoas que tem intolerância a lactose, se beneficiem das propriedades do leite através do Yogurt;
- Mecânica: ajudam a regular a peristalse. Previnem cólicas e diarréias em crianças e adultos;
- Imune: produzem antibióticos (acidofilina) e antifúngicos. Interagem permanentemente com as células imunes da mucosa intestinal, aumentando o número destas células. Inativam toxinas de outras bactérias. Tem efeito anticancerígeno. Previnem tumores intestinais;
- Bioquímica:produzem ácido láctico, que equilibra o ph. Quebram ácidos biliares. Normalizam o Colesterol e os Triglicérides;
- Metabolismo: Quebram e reaproveitam hormônios.

As bactérias do intestino previnem infecções intestinais, vaginais e urinárias. Muitos trabalhos mostram que a suplementação com Lactobacillos, ajuda a prevenir infecções causadas por Cândida e outros micróbios que florescem em ambiente alcalino, principalmente no trato genito-urinário. Nem todas as bactérias são amigáveis, a maioria que reside no intestino são comensais, nem boas, nem más. Outras são patogênicas, podem causar infecções agudas e nosso corpo reage através de diarréia, febre, gases, perda de apetite e vômitos. As bactérias que causam doenças crônicas, são geralmente organismos fracos, com pouca virulência, mas quando a colônia aumenta muito, elas podem causar doenças. Este tipo de doença é denominado disbiose.

O uso indiscriminado de antibióticos acaba destruindo bactérias intestinais residentes e tornando algumas bactérias adaptadas fora do seu habitat (por não terem com quem competir) e resistentes. Medicamentos que interferem na flora intestinal: antiácidos, antibióticos, antifúngicos, antinflamatórios, laxantes, anticoncepcionais, estrógeno e corticóides.

Um desequilíbrio na flora intestinal devido ao uso indiscriminado dos medicamentos citados acima, pode levar a sintomas como diarréia, constipação, síndrome pré-menstrual, dores articulares, dores musculares, alergias, rinite, muitos gases, doenças inflamatórias intestinais e pulmonares, deficiência de vitaminas, intolerância a lactose (açúcar do leite), irritabilidade, Depressão, vaginites, doenças auto-imunes e eczemas freqüentes.

Muitos pacientes acabam complicando ainda mais o quadro, quando começam a usar medicamentos para aliviar os sintomas decorrentes do desequilíbrio da microflora. A grande maioria passa a usar laxantes, analgésicos, antinflamatórios e antiácidos.

Entre as causas mais comuns de disbiose, além das medicamentosas, encontra-se o estresse, as exotoxinas (substâncias químicas encontradas nos alimentos), as endotoxinas (provenientes do metabolismo de alguns alimentos ou do metabolismo de microrganismos que habitam o intestino), alimentos com baixo valor nutritivo, como os carbohidratos simples e gorduras, e os antibióticos embutidos nos alimentos.

As toxinas que estes microrganismos produzem, são muito tóxicas para todas as células, Elas acabam lesando a borda em escova que recobre as células do epitélio intestinal e isto facilita a absorção e transporte pela circulação, para órgãos mais distantes. Inicialmente estas lesões são reparadas através de um turn over das células epiteliais, os microrganismos são detectados pelas células imunes que as retira via sistema linfático. Todos os agentes sinalizadores entram em ação, não só os imunoquímicos, mas a rede de secreção também é ativada, numa tentativa de eliminar o mais rápido possível o agente agressor. Há um aumento do peristaltismo e da secreção de muco e líquido. Dor, inflamação e diarréia são sintomas resultantes da guerra que o intestino está travando. Quando há um microrganismo patogênico, a linha de células do epitélio intestinal inflamada, não sinaliza mais para as células do sistema imune e a batalha é perdida. A parede intestinal lesada, cria um ambiente propício para que estes microrganismos alcancem a circulação. Eles são facilmente absorvidos, porque o intestino lesado, perde a permeabilidade seletiva e especializada. É a denominada Quebra da Barreira Intestinal. Normalmente, a barreira da mucosa intestinal é seletiva à passagem de moléculas e substâncias do conteúdo luminal. A natureza da molécula luminal é que vai programar a absorção e a difusão. Quanto maior a agitação no intestino delgado, menos resistência terá a barreira difusional.
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