Pimenta para aliviar a dor
De acordo com um estudo da Harvard Medical School, publicado na revista “Nature” esta semana, uma combinação de capsaicina (o ingrediente responsável pelo ardor característico da pimenta) e QX-314, um derivado da lidocaína (anestésico local usado por dentistas e também para aliviar inflamações ou coceiras na pele) silencia com sucesso os neurônios sensíveis ao estímulo doloroso, sem perturbar outras células nervosas que controlam as funções motoras e outras sensações.
Sabe-se que o QX-14 reduz a atividade dos neurônios sensíveis ao estímulo doloroso no sistema nervoso e teoricamente aumenta a resistência à dor. Mas há um porém: os pesquisadores descobriram que “o QX-14 não funciona fora de um neurônio, apenas dentro dele”, reconhece Bruce Bean, professor de neurobiologia na Harvard Medical School e co-autor do estudo.
David Julius, professor de psicologia da University of California em San Francisco, descobriu recentemente que a capsaicina se liga seletivamente a uma proteína conhecida como TRPV1, localizada nas membranas dos neurônios sensíveis ao estímulo doloroso. Quando essa ligação acontece, a proteína abre um portão que leva a um pequeno canal na membrana do neurônio (as células nervosas que não contêm a TRPV1 não são afetadas). “O estudo inovou ao mostrar que a molécula de QX-314 talvez fosse pequena o bastante para entrar por esse canal”, afirma Bean.
Se isso realmente pudesse acontecer, os cientistas concluíram que injetar a capsaicina, seguida pelo QX-314, permitiria ao composto da pimenta abrir as portas desses neurônios sensíveis ao estímulo doloroso, liberando o caminho para o anestésico entrar e “desligar” essas células. Inicialmente, a equipe testou a teoria usando culturas de neurônios da medula de ratos, e descobriu que a atividade elétrica nos neurônios sensíveis ao estímulo doloroso apresentou declínio após injeções de capsaicina seguidas por QX-314. Isso indica que as células estariam fracas demais para mandar a mensagem da dor para o cérebro.
Então, os pesquisadores conduziram dois experimentos com os ratos. No primeiro, injetaram a capsaicina e o QX-314 nas patas de alguns dos animais, e então os colocaram sobre superfícies aquecidas até que sentissem dor. Todos os ratos que receberam as injeções ficaram anestesiados mesmo quando a superfície foi aquecida ao máximo. No segundo experimento, o coquetel foi administrado nos nervos ciáticos de alguns ratos do grupo de teste (o ciático é o nervo mais longo do corpo, e é responsável pela sensação nas costas e nas extremidades inferiores). Então, os animais foram “cutucados” com intensidades diferentes; metade do grupo nem ficou irritado, mesmo com o golpe mais forte.
Nenhum dos ratos que havia recebido o coquetel de capsaicina e QX-314 sofreu paralisia temporária – um efeito colateral potencial da anestesia tradicional –, o que indica que a combinação foi direcionada com sucesso somente para os neurônios sensíveis ao estímulo doloroso. Essa maior resistência à dor durou até quatro horas, de acordo com Bean.
David Julius (que não fez parte do estudo) achou a nova abordagem simples e inteligente, mas ressalta que a metodologia precisa ser adaptada antes de o coquetel seja usado em humanos. Um grande obstáculo a ser transposto, ele diz, é a natureza irritante da capsaicina, que causa ardor quando alguém a toca – e ainda mais quando a ingere. “Se o QX silenciar o nervo rápido o bastante depois que a capsaicina abrir o canal, então o coquetel poderia funcionar em alguns tipos de aplicações locais de anestésicos.”
Bean conta que Alexander Binshtok, co-autor do estudo em Harvard e pós-doutorando em plasticidade neuronal, já está trabalhando para tentar eliminar os efeitos negativos da capsaicina revertendo a ordem das injeções: o QX-314 vai primeiro, seguido rapidamente pela capsaicina para levá-lo para dentro da célula.
O ideal, diz Bean, é que os pesquisadores encontrem uma maneira de acabar com qualquer dor inicial antes que o método apimentado substitua injeções de novocaína e epidurais. Sua equipe também está buscando uma molécula similar à capsaicina “que abra os canais de TRPV1, mas sem um efeito tão irritante”.
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